domingo, 11 de janeiro de 2015

La falsa inocencia de nuestros estômagos / A falsa inocência dos nossos estômagos


La falsa inocencia de nuestros estômagos

Nuestros estómagos son         anillos de carne o de yodo
nuestros estómagos son continentes podridos de luz

el vacío de esta habitación es un estómago que piensa en  nuestros cuerpos
piensa que son árboles
o ojos en una garganta cerrada de carne

y es que no queremos ser bellos ni pálidos ni mutilados sobre este colchón azul

se oye el viento ladrar en nuestras tráqueas tímidas de amapolas
porque nos quieren enterrar en ataúdes de nitrógeno y fuego

los insectos huyen hacia sus cuerpos de diamante para no sentir la realidad
la realidad es una colmena de estómagos
de malas arterias que se cosen solas
de malas arterias que transportan larvas de un árbol caído

y es que  queremos ser niños que vomitan aceite ardiendo a los padres de la hipocresía

y es que queremos ser niños que vomitan ramos de orquídeas blancas a nuestros padres del silencio

no queremos ser niños crucificados en la retórica o en la política rancia de nuestros hermanos rotos de libertad

la inocencia nos mata
la inocencia de nuestros ojos-bisturí araña y extirpa el corazón de la pobreza
la inocencia de nuestra gramática está perdida en un bosque de huesos relamidos por la histeria de ser siempre los mismos que llegan tarde a la muerte
la inocencia nos asfixia con collares de lejía
la inocencia nos entristece porque no somos jaulas de vidrio
la inocencia de nuestros estómagos nos duele
nos duele mucho porque la muerte se raspa para no tocarnos
la inocencia  no es un hueso ni es una bomba de sangre
la inocencia no es inocencia en una tumba de flores

nuestros estómagos nunca fueron inocentes
nuestros estómagos no se quemaron
nuestros estómagos no se quemaron
porque no podían destruir una ciudad en un vaso de tristeza
nuestros estómagos son trágicos en la danza de la nostalgia
nuestros estómagos son poemas que no sostiene la noche
nuestros estómagos bailan y se marchitan en lágrimas de cloro

no queremos ser niños en una ciudad de odio
no queremos llevar nuestros estómagos a una ciudad de guerra
no queremos llevar banderas de colores que son contenedores de basura orgánica

el hombre no nació siendo respuesta
como tampoco el animal  nació siendo un mar en cenizas

Llevamos párpados amargos
libros que queman las pestañas de la noche
queman para no tener más hambre
la sangre no puede renacer más entre las cenizas
llueve el humano descompuesto
el jabalí muerde la rosa inyectada de enfermedad
la enfermedad se llena de amapolas azules
y la enfermedad se vacía de sí misma
para ser locura y después generación.
En los ojos de mi vagina que mordiste
la guerra perdió su estómago de leche
y tres mil años de oscuridad absoluta.

Nuestros gatos arañan nuestros estómagos
porque  para explicar la crueldad ya no servía
la teoría de la inocencia de los estómagos
aplicada a los niños que crecieron sabiendo
que eran  preguntas cuyas respuestas
apuñalaron la ilusión por un mundo nuevo.



A falsa inocência dos nossos estômagos

Os nossos estômagos são         anéis de carne ou de iodo
os nossos estômagos são continentes apodrecidos de luz

o vazio deste quarto  é um estômago que pensa em  nossos corpos
pensa que são árvores
ou olhos numa garganta cerrada de carne

e é que não queremos ser belos nem pálidos nem mutilados sobre este colchão azul

ouve-se o vento ladrar nas nossas traqueias tímidas de borboletas
porque nos querem enterrar em ataúdes de nitrogénio e fogo

os insectos fogem para os seus corpos de diamante para não sentir a realidade
a realidade é uma colmeia de estômagos
de más artérias que se cosem sozinhas
de más artérias que transportam larvas de uma árvore caída

e é que  queremos ser crianças que vomitam azeite ardendo os pais da hipocrisia

e é que  queremos ser crianças que vomitam ramos de orquídeas brancas sobre os nossos pais do silêncio

não queremos ser crianças crucificadas na retórica ou na política rançosa dos nossos irmãos estilhaçados de liberdade

a inocência mata-nos
a inocência dos nossos olhos-bisturi aranha e extirpa o coração da pobreza
a inocência da nossa gramática está perdida num bosque de ossos relambidos pela histeria de serem sempre os mesmos que chegam tarde à morte
a inocência asfixia-nos com colares de lixívia
a inocência entristece-nos porque não somos jaulas de vidro
a inocência dos nossos estômagos dói-nos
dói-nos muito porque a morte roça-se para não nos tocar
a inocência  não é um osso nem é uma bomba de sangue
a inocência não é inocência numa tumba de flores

os nossos estômagos nunca foram inocentes
os nossos estômagos não se queimaram
os nossos estômagos não se queimaram

porque não podiam destruir uma cidade num copo de tristeza
os nossos estômagos são trágicos na dança da nostalgia
os nossos estômagos são poemas que a noite não sustém
os nossos estômagos bailam e murcham em lágrimas de cloro

não queremos ser crianças numa cidade de ódio
não queremos levar os nossos estômagos a uma cidade de guerra
não queremos levar bandeiras de cores que são contentores de lixo orgânico

o homem não nasceu sendo resposta
como tampouco o animal nasceu sendo um mar em cinzas

Andamos  de pálpebras amargas
livros que queimam as pestanas da noite
queimam para não ter mais fome
o sangue não consegue renascer mais entre as cinzas
chove o humano descomposto
o javali morde a rosa injetada de enfermidade
a doença enche-se de borboletas azuis
e a enfermidade  esvazia-se de si mesma
para ser loucura e depois geração.
Nos olhos da minha vagina que mordeste
a guerra perdeu o seu estômago de leite
e três mil anos de escuridão absoluta.

Os nossos gatos arranham os nossos estômagos
porque  para explicar a crueldade já não servia
a teoria da inocência dos estômagos
aplicada às crianças que cresceram a saber
que erram  preguntas cujas respostas
apunhalaram a ilusão por um mundo novo.


(tradução: alberto augusto miranda)