domingo, 25 de janeiro de 2015

Sestina / Sextina


Sestina

September rain falls on the house.
In the failing light, the old grandmother
sits in the kitchen with the child
beside the Little Marvel Stove,
reading the jokes from the almanac,
laughing and talking to hide her tears.

She thinks that her equinoctial tears
and the rain that beats on the roof of the house
were both foretold by the almanac,
but only known to a grandmother.
The iron kettle sings on the stove.
She cuts some bread and says to the child,

It's time for tea now; but the child
is watching the teakettle's small hard tears
dance like mad on the hot black stove,
the way the rain must dance on the house.
Tidying up, the old grandmother
hangs up the clever almanac

on its string. Birdlike, the almanac
hovers half open above the child,
hovers above the old grandmother
and her teacup full of dark brown tears.
She shivers and says she thinks the house
feels chilly, and puts more wood in the stove.

It was to be, says the Marvel Stove.
I know what I know, says the almanac.
With crayons the child draws a rigid house
and a winding pathway. Then the child
puts in a man with buttons like tears
and shows it proudly to the grandmother.

But secretly, while the grandmother
busies herself about the stove,
the little moons fall down like tears
from between the pages of the almanac
into the flower bed the child
has carefully placed in the front of the house.

Time to plant tears, says the almanac.
The grandmother sings to the marvelous stove
and the child draws another inscrutable house.

Elizabeth Bishop


Sextina

A chuva de setembro cai sobre a casa,
fraqueja a luz. A velha avó
está sentada na cozinha com a criança
junto à oitava maravilha de um fogão.
Lê as anedotas do almanaque,
ri e fala para esconder as lágrimas,
julgando que o equinócio dessas lágrimas

e a chuva que bate no telhado da casa
foram ambos previstos pelo almanaque,
ainda que só fossem sabidos de uma avó.
A chaleira de ferro canta no fogão.
Ela corta pão e diz à criança,

Está na hora do chá; mas a criança
está de olhos postos na chaleira, nas duras lágrimas
que dançam como loucas no calor negro do fogão
exatamente como a chuva dança sobre a casa.
No afã de arrumar, a velha avó
pendura a inteligência do almanaque
na sua corda. Parece um pássaro, o almanaque,

pairando semiaberto sobre a criança,
pairando sobre a velha avó
e a sua chávena turvada de lágrimas.
Ela arrepia-se e diz que a casa
lhe parece fria, e põe mais lenha no fogão.
Era para ser, diz o fogão.
Sei o que sei, diz o almanaque.

Após ter posto mais firmeza na casa
que no caminho para lá chegar, a criança
acrescenta um homem com botões como lágrimas
e, orgulhosa, mostra o desenho à avó.

Secretamente, contudo, enquanto a avó
está atarefada em roda do fogão,
as pequenas luas caem como lágrimas
de dentro das páginas do almanaque
para dentro do canteiro de flores que a criança
colocara com primor em frente da casa.
É tempo de plantar lágrimas, diz o almanaque.
A avó canta para a maravilha do fogão
e a criança volta a desenhar uma inescrutável casa.


(tradução de: Pedro Ludgero)