sábado, 12 de novembro de 2016

LC - Um (dois, três) tremor(es) de estrelas

Um (dois, três) tremor(es) de estrelas

1.Tento esquivar-me da perda. Leio Lorca à sombra de uma tarde em flor, nos auspícios do Inverno, poeta inevitável para Cohen, poeta inevitavelmente belo, e depois, pensando melhor, fujo de Lorca também e atinjo Vallejo: “He soñado una fuga. Un para siempre/suspirado en la escala de una proa”.

2.Mas até em Vallejo a morte aparece. Não há fuga possível, eu sei, não há poema que não esteja agora tingido pela distância obscena de um corpo que tantos corpos aproximou do seu. Cohen afasta-se de nós, acena-nos da proa do navio que permanece intacto no verso sussurrado de Vallejo, e com uma lucidez extrema segura o chapéu negro na cabeça, faz muito vento a bordo de uma canção derradeira, a tarde desfigurada e veloz, com os todos os passados por perto. Volto a Lorca, é inevitável, Vallejo já se perdeu no seu sonho, no seu poema flutuante, no seu suspiro, no seu exemplo: “Hoy siento en el corazón/un vago temblor de estrellas”.

3. Um tremor de estrelas. Porque é que a luz vacila? Por que raios a distância está cada vez mais concreta e o amor ausente? Hoje vou usar chapéu. Tenho medo da potência das estrelas. Hoje vou usar qualquer coisa que cubra o coração desfeito. Hoje vou dançar até que o amor termine, dançar a Danza de la Muerte dentro da minha cabeça, debaixo do chapéu, debaixo das estrelas; hoje vou esquivar-me da esquiva, com Lorca, sem Lorca, com a patética inabilidade de sempre para dar um passo sequer, e vou cair e vou arder e um violino virá em meu auxílio, demasiado tarde talvez, e não haverá senão regressos, Leonard, fugas invertidas, distâncias muito ténues, Hallelujah, Leonard, Hallelujah, It’s a cold and it’s a broken Hallelujah!


André Domingues