domingo, 20 de novembro de 2016

os bebés também morrem sozinhos

os bebés também morrem sozinhos
(para a íris)

I.
Da nevralgia da memória descem vagarosamente barcos de osso a esboçar sorrisos. Há medusas a dançar num balde de praia, veneno balouçado na aresta desviada das bocas, um grito embalsamado em bonecas de olhos para sempre fechados.
Pedras vivas chocalham imagens na estrica do meu sangue, e a dor canta-me um bebé e coisas assim... Um lençol num templo pequenino. Uma caixa de música. Unhas minúsculas cor-de-laranja. Água a escorrer pelo teu corpo num rio de verão. A tua voz jamais ouvida. A tua mão a apertar a minha. Ver-te sorrir.
Ah, do espelho absoluto - tambor da morte- um sanguíneo eclipse escorre caminhos para pias de bruma, e fica uma nudez aflita mordendo textos impossíveis, arrebatamento de um só despido pela branca geometria da loucura.

II.
Sugo a árvore placentária pela planta dos pés.
Ainda assim não há ave que toque nos versos
irrecuperáveis     sumidos      pequenos
versos em luto num bailado escabroso de asas.
No mistério denso da garganta
os bicos esgrimam a última luz das supernovas
e há um leito de ossos moles e olhos de lodo
que não me diz adeus.
Há a voz omissa da morta
há a voz traída do laço que a gerou
uma jugular presa à corrente.

No meu encalço o fantasma do silêncio
as veias que tremem a um afago do mundo
a íris que rodopia na fuga urgente ao rasgo imenso
as cinzas que me pertencem no vaso minúsculo
em que me foi negado tocar
comer devorar
coser a lume no peito.

Agora é preciso quebrar
a coluna vertebral do pânico
roubar as pedras de um castelo ardido
ser fogo fendido para um qualquer alheamento.
É preciso desconstruir esses alicates macios
desmembradores da líbido do mundo
caçar todas as didascálias
toda a meiguice mórbida da noite.
E este “precisar de” é algo como uma perspectiva perdida,
uma imagem que não se registou.
É dizer “estou morto”
ou aceder à mudez de uma vela -
como se pudéssemos assimilar radicalmente a destruição de uma coisa.


Tentei fazer dos meus poemas um arquipélago longe do país da tristeza
Mas a solidão da tua morte dentro de mim aniquila a semântica de todo o gesto.
A solidão da tua morte dentro de mim cala todos os versos.


Elsa Oliveira