quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Ponte Luiz I


Eu desço por ti – disse-lhe. Arranja-me corda.

Debruçada no ventre marmóreo do vento
Em cama de céu vertical
Um corpo confuso cheio de olhos fita o rio.
As arestas, as arestas
Fendas tricotadas de precipício
E nos pés o pulsar da dama de ferro.

Jurei que te montava,
E com a corda nos dedos frágeis
Os pés abrem-se de vida às casas
Que me saltam pela boca.

Madrugada às cambalhotas pelos olhos:
São os pés que se enroscam no vazio
E a corda já ficou no tabuleiro
De mil espadas nos olhos
Abertas pelo Douro.

Montar o arco de um lance
E o corpo cola-se gélido ao gigante inclinado
Que dobra e foge
Que ferve de cactos o olhar.
Içado pelo breu o grito
Superlativo presente
O choque colossal dos meus músculos de besta
Que doma, que prende
Que reina sobre a ponte.

Na mente primitiva a urgência
Urgência sem nome como todas as urgências
Porque nenhuma palavra esconjura este orgasmo de medo:
Os olhos abandonaram-me
São caleidoscópios de mãos e de pés
Que me abrem a garganta de casas e de rio
Um monstro que ato à ultima rédea
Sem mãos as mãos
Os pés sem pés.

Porque nada mais existe
Nada Nada
A não ser a febre de vencer a morte
Ó proibidíssimo acto
(mais valia atirares-te!, diz a lei)
Proibidíssimo acto de ser Fera Absoluta
De olhos às cambalhotas pelas casas
De olhos lançados como dados a suar vertigem
Noite rendilhada de vertigem
Olha as arestas tantas arestas
O rio negro de metal.

E no caracol da escada entrecortada de abismo
Um rosto, uma voz.

Desceste por nós – disse-me. E uma mão estendida reconstruiu o meu corpo.


Elsa Oliveira