quinta-feira, 23 de março de 2017

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Sempre fui miúda de sonhos descabidos
miúda grotescamente poética,
chata de coisas que chateiam
de pernas fininhas que depois engrossaram

as miúdas poéticas são bobinas de filmes, riscadas
são gaitas desafinadas
onde muitos passaram os lábios
mas não ficaram
as miúdas poéticas contemplam o suicídio
mesmo depois de uma taça de Corn Flakes
olham os telhados laranja de Lisboa
e pensam noutro sítio qualquer
semeiam flores para terem perfumes
matam-nas, por amá-las de mais

as miúdas poéticas têm cabelos desmoronados
de beatas e perguntas
têm roupa de detergente barato
e as unhas roídas à la carte
tossem devagarinho com medo de
agredir alguém
têm posse de girafa mas não chegam às árvores


Cláudia R. Sampaio