segunda-feira, 5 de junho de 2017

espectro de Brocken

O diabo azul sorri de soslaio, arruda ou sálvia no musgo - lábio sóbrio de espelhos. Olha, o diabo azul, para todos os livros azuis, aquele tegumento de urânias capturadas pelas manias múltiplas do catavento, quando teima esferas no céu elétrico das violetas tentadas ao adormecer. Nada de flores no sorriso, mas um barco muito antigo sonhando a crescente flutuante sobre um abismo de lágrimas agitadas. A flor é sempre uma água contorcionista, nem sei se podes ver. Mesmo assim, a mulher-lagartixa grita agonias sombreadas dentro do órgão rígido das catedrais - aquíferos de cuspe bifurcando orações de salitre. Quantas horas eram? As mesmas horas ruminantes no corpo de espinho-cristo e o sino minúsculo imitando escapulários na parede que sempre encontra os pés. Os dedos alados em passo de morcego diurno, por falta do sangue aveludado das tapeçarias. Vês a orgia? Comecei com um diabo azul-celeste, o lábio-portal sugando o enredo de qualquer floresta que ouses imaginar. Arabesco e plataforma de vidro vulcânico, para que te possas deslizar o ventre lagarteado. Onde encontras o céu dos beatos, quando os pés esquecem as nadadeiras do teu gene colisor? Merapi, erebus, gás louvado a 3800 metros do sombrio mar. É vermelha a boca da moça que é mil mulheres. Sei que já a tomou nos braços quando a folha te pousou no punho, enquanto mergulhavas no frescor dos mármores e das esfinges - como relógio canibalista, sobrevivente de erupção. Depois, atração temporal no circo de horrores sísmicos. Tentavas reconciliar a deusa do oceano com o demônio do vulcão? Erta Ale, erta ale, magma exposto no teu osso, feito bruma vadia de jugular. Agrotóxicos e andróginos oscilam. Se hienas não mastigarem estes seus suspensórios porosos, virará pó aluvial. Lembrarás uma raposa voadora? Meu palco é de pedra-pomes. As garras? Pontas de obsidianas para pantáculos de hominídeos. Como o vagar sem echarpe por necrópoles: não aconselho. Onde foi mesmo que perdi o enredo do diabo azul? Creio que não foi minha perdição, mas tenho certeza de que ele se perdeu nas próprias imagens que me enviou. Eu ainda consigo me deter em cada verso vertebral e contemplar a sua espinha bífida na redação de meu espectro de brocken.


Andreia Carvalho