domingo, 18 de junho de 2017

Tuna


Preciso pintar a face com sinos. Costurar ao corpo a saia de jade. Oscilar os fios de serpentes na borda afiada da cratera. Sem ferir o monstro da terra, sem morrer durante o parto. Preciso plantar o milho sagrado, decifrando o calendário extinto, em horas de lua asteca e sol incaico. Depois cozer o pão com formato de estrelas, sem incinerar aldeias. Sem alimentar a siderurgia que queima a face pintada com sinos, que rasga a saia de jade, ferindo o monstro da terra, morrendo durante o parto. Mas danço ao ritmo esquizo de uma despedida fronteiriça. Dos rituais ancestrais restaram incólumes os bisnetos sacrifícios. Os crânios alongados estão reduzidos. As bestas primaveras do jardim escondem-se sob meus pés, cinzentos de junco e júbilo. Sai-me uma centopeia pela boca. E a chuva industrial me apaga os pontos riscados.


Andreia Carvalho