sábado, 8 de julho de 2017

CACOGRAFIAS E HILDA HILST



Na residência na Casa do Sol, estive à procura de elementos sensíveis e dispersos para compor um dos ensaios poéticos de minha dissertação de mestrado, que, é importante dizer, está sendo feita no formato de uma arte considerada menor, como a de uma história em quadrinhos (HQ). “Cacografias” aparece no título quando trabalho com a matéria-prima fragmentária, dispersa, recortada, solta, ilegítima, e criada por nós a partir de ruínas… Isso porque trabalho com o tema “mulheres artistas e criadoras marginais”, no qual entra a poeta Hilda Hilst como uma guerreira sobrevivente. Trata-se de criação e homenagem, mas também da resistência de afecções, para que possamos nos afetar sempre e novamente, nos sensibilizar em memória, contrapondo o apagamento histórico (legitimador) que assombra as mulheres em arte. Pesquisar sobre artistas mulheres é visualizar-se num turbilhão de imagens que são urgentes e dispersas, é deparar-se com uma situação de resgate de existências em que aprendemos a guardar-cuidar de nossas referências como uma espécie de manutenção daquilo que, sabemos, são também nossas próprias vozes, como “cacofonias” que podem gerar outros arti-fíccios quando criamos com elas. Não seria esse o movimento arquivístico do pensar-poeta que a tudo considera em seu trabalho?

Caco, sim, de caco mesmo. Fragmento, pedaço, estilhaço… Ou qualquer coisa considerada como gasta, quebrada, incompleta… Ruim, má, menor, ínfima. Como uma velha senhora, por exemplo, instalada debaixo de uma escada a contar esfacelamentos que ninguém ouve ou uma menina de pernas abertas em uma lagoa a ficar pensando sobre “pernas” em um caderno rosa de mentira… Personagens menores, coisa “insignificante”, podem dizer, então é. Mas só aparentemente, e numa perspectiva apenas, de outras tantas… Isso se nos dispusermos a tecer nossas próprias versões atravessadas ao que chamam de “todo”, “inteiro”, “obra”, “produto”, “verdade” e “é isto”. Grafia, porque trata-se de desenho e palavra em ato, in-puro desejo procurando viver em mim, em ti, na poeta que ainda está. “Cacografias”, assim, são como exercícios de desejo, de visibilidade e de forma, feito de sonhos e de sombras… Coisa subjetiva, coisa mal-dita, pois é.

De relatos de sonhos, desenhos e grifos em livros, o desenho-desejo se mostra para que toda distância seja recuperada como forma, mas forma híbrida, pungente. Fui assim afetada pelas muitas sutilezas “ínfimas” deixadas pela poeta em seus vestígios, nas sombras pela casa e em papéis gastos e soltos, mas que mostram a força de seu processo de trabalho, de sua luta como poeta e mulher para viver, e que não são muitas vezes considerados como “obra”. Os arquivos consultados no Centro de Documentação Alexandre Eulálio (Cedae), da Unicamp, foram uma fonte e complementaram as intensidades vividas na Casa do Sol. Selecionei nessa pesquisa desenhos e rascunhos poéticos sem maiores pretensões e anotações noturnas de sonhos que me levam a compor as páginas de quadrinhos com ela. Páginas-sensação, páginas vivas.

A figura de Olga Bilenky também foi fundamental para a construção de uma presença poética de Hilda Hilst; sensível, guardiã, como uma alma viva da memória material e imaterial da poeta e do que foi vivido em sua presença, junto com ela, na casa. Tudo cotidiano, circundante, voz, sombra, sonho, em que aos poucos vamos tomando distância do mito e flexionando a poesia na própria vida. Tão crua e fragmentada, a vida, como não poderia deixar de ser. “Vou atrás das sombras da poeta para ver se é mulher…” — há uma mulher? Sim, mas há muitas nela… “Alguém, uma mulher nua com desenhos no corpo resolve voar e cola-se no teto”… Cacografias do desejo.


Aline Daka